Introdução
Todos nós temos dificuldades em transferir ideias do cérebro para uma folha de papel ou para a tela de um computador. Quem nunca se desesperou diante do cursor piscando na tela enquanto o relógio avançava rapidamente rumo ao fim do prazo para entrega daquela atividade ou petição?
Em busca de um método que me auxiliasse na elaboração de meus trabalhos, deparei-me com o livro How to Take Smart Notes, de Sönke Ahrens. Neste livro, o autor nos apresenta o método Zettelkasten, de Niklas Luhmann, famoso sociólogo alemão, conhecido pela abundância e qualidade de sua produção acadêmica.
A palavra pode fazer parecer que o método é muito complexo, mas “Zettelkasten” é a expressão alemã para “caixa de fichas” ou “fichário”, ou seja, o lugar onde as fichas são arquivadas.
O método subverte a ideia de que a escrita de um artigo ou tese se desenvolve somente após a investigação e o estudo. Em verdade, escrevemos durante a pesquisa, buscando a produção de notas de qualidade. Organizar a escrita e a tomada de notas é o que atribui definição e significado ao ato de pesquisar.
Neste método, a utilidade de uma nota demanda seu enquadramento em um determinado contexto. Esse contexto, todavia, não necessariamente será aquele do qual ela foi retirada. É preciso, portanto, estar aberto às possibilidades. Um exemplo no meu campo de pesquisa: uma nota sobre o conceito de “incapacidade laborativa” pode ser manejada em um artigo sobre benefícios por incapacidade (Direito Previdenciário), mas também em uma petição que busque o reconhecimento da estabilidade acidentária (Direito do Trabalho).
O Zettelkasten
Luhmann tinha dois fichários, um bibliográfico e outro principal:
- Bibliográfico: neste fichário eram depositadas fichas com a referência bibliográfica de um lado e notas breves sobre o conteúdo do outro. São as notas de leitura.
- Principal: este fichário recebia novas notas nas quais Luhmann, a partir das notas breves, escrevia as suas próprias ideias, comentários e pensamentos. Para cada ideia, uma ficha.
As notas recebiam números que apenas as identificavam. Uma nota que desenvolvia outra era colocada logo atrás dela, e eram feitas remissões entre notas, de modo que uma mesma nota podia fazer parte de contextos diversos.
Além disso, havia um índice, que fazia referência a uma ou mais notas, as quais poderiam servir de ponto de partida para um tema ou linha de pensamento.
Processo e instrumental necessário
A tarefa principal do pesquisador é pensar, ler, entender e ter ideias. Sua ferramenta é a escrita.
O processo de produzir um artigo pode ser assim resumido:
- Tomar notas transitórias: lembretes do que passou pela cabeça. Podem ser tomadas em qualquer lugar e posteriormente processadas.
- Notas de leitura: breves, selecionadas e com as próprias palavras.
- Notas permanentes: não acumular ideias, mas desenvolver argumentos e discussões a partir delas, usando frases completas, como se escrevesse para outra pessoa, com indicação das fontes e referências. Deve haver uma nota para cada ideia. Precisão, clareza e concisão.
- Adicionar as notas ao fichário, conectando-as a outras que com elas se relacionem. Não se esqueça do índice.
- Desenvolver temas, perguntas e projetos de investigação dentro do sistema, de baixo para cima.
- Decidir sobre um tema (depois de ter ideias suficientes). Buscar conexões e compilar as notas relevantes.
- Converter as notas em um texto coerente.
- Editar e corrigir o manuscrito.
E qual seria o material necessário?
- Ter onde e com que escrever: as ideias devem ser anotadas quando chegarem à mente. Hoje em dia, com os smartphones, é fácil registrar rapidamente uma ideia. Ahrens sugere papel e caneta pela simplicidade. Essas anotações devem, preferencialmente, ser processadas no mesmo dia.
- Sistema de referências: você pode fazer isso manualmente, mas sugiro que utilize um aplicativo específico. Eu uso o Zotero. Se estiver usando um fichário digital, você pode vincular a nota de leitura ao item correspondente no Zotero.
- Fichário (físico ou digital): eu uso o Obsidian. Há diversos tutoriais na internet sobre como aplicar o método usando o aplicativo.
- Editor de texto: eu uso o LibreOffice Writer, mas você pode usar também Word e Google Docs. Os três têm integração com o Zotero.
Na parte II, continuo o resumo do livro com os quatro princípios que, segundo Ahrens, sustentam o método: a escrita é a única coisa que importa, a simplicidade é fundamental, ninguém começa do zero e o trabalho deve levar você adiante.